Viver a Quaresma

No início do caminho quaresmal, a Palavra de Deus dirige à Igreja e a cada um de nós dois convites.

O primeiro é o de são Paulo: «Reconciliai-vos com Deus!» (2 Cor 5, 20). Não é simplesmente um bom conselho paternal, nem sequer apenas uma sugestão; tratase de uma verdadeira súplica em nome de Cristo: «Em nome de Cristo, vos rogamos: reconciliai-vos com Deus!» (Ibidem). Por que motivo um apelo tão solene e urgente? Porque Cristo sabe quanto somos frágeis e pecadores, conhece a debilidade do nosso coração; vê-o ferido pelo mal que cometemos e padecemos; sabe quanta necessidade temos do perdão, sabe que temos necessidade de nos sentirmos amados para fazer o bem (…).

Pode haver alguns obstáculos, que fecham as portas do coração. Há a tentação de blindar as portas, ou seja, de conviver com o próprio pecado (…). Outro obstáculo é a vergonha de abrir a porta secreta do coração. Na realidade, a vergonha é um bom sintoma, porque indica que desejamos separar-nos do mal (…). E existe uma terceira insídia, a de nos afastarmos da porta: isto acontece quando nos escondemos nas nossas misérias (…).

Há um segundo convite de Deus que, por intermédio do profeta Joel, diz: «Voltai a mim com todo o vosso coração» (Jl 2, 12). Se devemos voltar, é porque nos afastamos. É o mistério do pecado: afastamo-nos de Deus, dos outros, de nós mesmos (…). Ao lado desta história de pecado, Jesus inaugurou uma história de salvação. O Evangelho que inaugura a Quaresma convida-nos a ser os seus protagonistas, abrangendo três recursos, três remédios que curam do pecado.

Em primeiro lugar, a oração, expressão de abertura e de confiança no Senhor: é o encontro pessoal com Ele, que abrevia as distâncias criadas pelo pecado. Rezar significa dizer: «Não sou auto-suficiente, tenho necessidade de ti, Tu és a minha vida e a minha salvação». Em segundo lugar, a caridade, para superar o afastamento em relação aos outros. Com efeito, o verdadeiro amor não é um gesto exterior, mas acolher quantos têm necessidade do nosso tempo, da nossa amizade e da nossa ajuda (…). Em terceiro lugar, o jejum, a penitência, para nos libertarmos das dependências, daquilo que passa, para procurarmos ser mais sensíveis e misericordiosos. Trata-se de um convite à simplicidade e à partilha: tirar algo da nossa mesa e dos nossos bens, para voltar a encontrar o verdadeiro bem da liberdade.

Papa Francisco, Homilia, Quarta-feira de Cinzas, 10-02-2016

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